terça-feira, 31 de julho de 2007

Guimarães, Toquinho e os outros na colcha de retalhos


Fulano compôs uma canção. Não uma canção qualquer, mas dessas que pretendem condensar o mundo num só grito. Conseguiu o inatingível e se orgulhou muito de sua obra-prima, até que a realidade e os fatos berraram num tom acima: problemas orçamentários! Até então, não se havia dado conta de que o verbo consome muita verba, e que cada arranjo, cada nota, cada acorde eram completamente discordes com sua conta bancária; isso sem falar na rima! Aquela rima tão bem polida, não teve mais remédio que cortá-la. Por economia, se viu obrigado a espremer introdução, refrães e estrofes inteiras, reduzindo-os a um pequeno trecho, que se repetia à exaustão: ‘Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo’. E viu que, apesar de tudo, ainda era bom. As notas ecoavam saudosas de seu colorido, mas tinha conseguido manter um branco-e-preto vívido que ressoava ao longe, a perder-se e misturar-se com outras ondas.

Do outro lado da rua, essas notas alcançavam o Cidadão Comum sentado em sua varanda, meditando como cada dia. E, como cada dia, se sentia compreendido, porque a melodia lhe apaziguava o ânimo com força de resposta, que em realidade era mais que uma simples resposta, era a Resposta por excelência, destas que antecedem à pergunta mesma. Porém, essa certeza que lhe chegava tão forte com a primeira luz da manhã, se desvanecia com o passar das horas. Ao entardecer, outra vez a sensação de que vivia o dia, e não o sol, a noite, e não a lua. De madrugada, como de costume, a pergunta voltava a sua condição inevitável: que acontece quando nada acontece?

3 comentários:

Ataualpa disse...

Creio que (viajando um pouco) muito do que comenta pode ser aplicado a vários campos. Alguns que só aporrinham, como o comercial do último emagrecedor milagroso, ou (o que me assusta bem mais), a sinfonia tocada com maestria pela nossa classe política. Creio que nao adianta tentar mudar a fonte emissora, temos que investir na ampliaçao do espírito crítico do pobre (em vários aspectos) receptor. Assim, se prefiro branco-e-preto que nao seja por desconhecer o (argh) amarelo. Investimento a longo, longo prazo. Sinceramente, ainda sou um tanto cético.

Helayne disse...

A questao é que a gente nao pode afirmar que nada acontece... cada um tem um motivo pelo qual deve viver e lutar, cada um tem um milagre a conquistar...Cada um tem uma melodia pra oferecer... até em momentos que a gente acha que nao está fazendo nada "pra ninguém" pode estar fazendo, sim. E o mais interessante é que nem sempre o dinheiro é o começo desse fazer.Colocar um pouco de música na vida é tao essencial, primordial. E cada dia é de um aprendizado tao intenso que dá pra fazer um "chorinho"... Agora. Nesse momento, nada acontece?
Tem certeza?
Ouve a música tocar(rsrsrs)

Beijo da mais chata.

Helayne

silvia disse...

gostei disso... já leu perto do coração selvagem da Clarice Lispector?
bem, tem um trecho que a personagem Joana, ainda criança pergunta a professora no fim da aula
- o que é que se consegue quando se fica feliz
e- depois que se é feliz o que acontece?
- ser feliz é para se conseguir o que?
estou lendo ele no momento...por isso não me contenho acabo recitando... rsrs
amanhã leio mais e comento mais, senão te canso de comentários, e vou te conhecendo aos poucos.

tenho lugar novo, http://silvia-meujardim.blogspot.com só falta alguns detalhes... mas tô gostando, espero que tb goste...

obs: quando entrei aqui, estava tocando Bob Dylan, e eu ouvia muito quando eu tinha uns 7 anos, me deu uma coisa boa, tipo assim: vai ser bom estar aqui...
bjs